quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ultimas revelações sobre as Capivaras nos centros urbanos


Recentemente recebi um elogio de Gustavo Romeiro sobre a postagem do dia 23 de agosto de 2009 http://capivarapaulistana.blogspot.com/2009/08/tudo-sobre-as-capivaras-que-chegaram-na.html , e também uma critica na qual faz uma observação esclarecedora sobre a presença das capivaras em ambientes tão hostis como os centros urbanos, Romeiro nos mostra que a chegada das capivaras as marginais dos rios Pinheiros e Tietê encontra melhor hipótese no crescimento populacional da espécie.

Ainda segundo Romeiro “como existe limite para o número de indivíduos nos melhores habitats, os mais fracos são expulsos e passam a procurar novos habitats vazios ou com animais mais fracos.

Por isso, a remoção de animais de um lado para o outro é uma grande crueldade (pois eles serão mortos pelas capivaras donas do pedaço ou novamente expulsos) e um grande desperdício de dinheiro. Serve só para mídia mesmo...

A capivara é uma grande presa. Herbívora, prolífica, sustenta grandes predadores como as onças, cachorros do mato, grandes aves de rapina, jacarés e sucuris. Evoluiu com essa função ecológica por milênios, e precisa desse componente, senão sua população aumenta demais e o estresse faz com que se matem por recursos. A visão romântica de que as presas são coitadinhos e os predadores são vilões não cabe na natureza. Cada qual tem sua função e temos que ter a sabedoria para intervir na natureza racionalmente, para que possamos ter cada vez mais vida em torno de nós”.

A seguir publico na integra seu artigo sobre o assunto:
SOLUÇÃO DE CONFLITO: A CAPIVARA (HYDROCHOERUS
HYDROCHAERIS) COMO RECURSO NATURAL RENOVÁVEL

Por Gustavo Romeiro Mainardes Pinto e Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz

A capivara é uma espécie nativa que tem se favorecido pela conversão de áreas florestais para fins agropecuários. Tal situação tem gerado conflitos com a população humana principalmente devido aos prejuízos agrícolas e possibilidade de transmissão de doenças. Entretanto, a espécie apresenta potencial zootécnico e econômico para sistemas de produção em regime extensivo. Uma futura regulamentação de manejos extensivos deve amarrar a “outorga” da exploração da fauna à recuperação ou à conservação ambiental. Tal iniciativa pode melhorar o quadro ambiental e trazer uma alternativa de solução para o conflito existente, gerando renda e produção ecologicamente corretas, aproveitando recursos que hoje o País simplesmente desperdiça.

INTRODUÇÃO E DESENVOLVIMENTO
A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é um mamífero herbívoro semi-aquático que possui alta capacidade reprodutiva, alimentação generalista e pouca exigência quanto à qualidade do habitat. A conversão de áreas florestais em áreas agrícolas, além de reduzir a população de seus predadores naturais, aumenta sua área de alimentação possibilitando o crescimento acentuado das populações de capivaras. Neste cenário, a espécie vem se tornando um sério problema ao representar riscos de transmissão de doenças (Pereira & Labruna, 1998) e ao causar prejuízos à agricultura (Ferraz et al., 2001). A capivara possui potencial econômico para manejo extensivo, realizado na Venezuela desde a década de 1960 (Ojasti, 1991). Diante dessa situação de conflito, soluções que não onerem ainda mais os cofres públicos e que possam aliar os diversos setores da sociedade em torno de um objetivo comum são as que têm maiores chances de sucesso. Analisando a ecologia da capivara, verifica-se uma complexa organização social que reduz a produtividade e aumenta custos, inviabilizando sua criação em cativeiro. Assim, o sistema produtivo mais viável econômica e ambientalmente para a capivara seria o extensivo, realizado através do manejo adaptativo ou de controle (Caughley & Sinclair, 1994). Por outro lado, vemos que matas ciliares são artigos raros no sudeste do Brasil, apesar de todo o aparato legal (Lei Federal no 4.771/65 e Resolução CONAMA no 303/2002). A pressão dos setores sociais envolvidos exige soluções, geralmente condenando a espécie perante a opinião pública, o que pode servir de mote para ações ambientalmente desastrosas. Ainda, fazendo uma análise um pouco mais profunda, podemos concluir que praticamente toda a proteína animal produzida no País, excetuando-se o pescado, provém de áreas que um dia foram florestas e que foram convertidas à agropecuária.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A legislação que dispõe sobre a fauna nativa foi criada numa época em que o conceito de uso e conservação dos recursos naturais praticamente inexistia, sendo quase uma unanimidade que a proteção repressiva seria a única forma de evitar a perda de biodiversidade (Lei Federal no 5.197/67). Dessa forma, a letra da lei é bastante restritiva, inviabilizando o manejo extensivo da fauna na natureza. Entretanto, os fatos têm mostrado a necessidade de elaboração de novas normas que busquem não somente evitar a continuidade da degradação ambiental, mas sim reverter esse quadro, visando a recuperação de áreas hoje degradadas e a produção agroecológica. Uma proposta de solução para o conflito que envolve a capivara basear-se-ia primeiramente na definição de bacias hidrográficas onde este esteja estabelecido e exista viabilidade ecológica e econômica de manejo extensivo de capivaras. Definida a bacia, proceder-se-ia a uma avaliação das populações, classificando-as em:
1) áreas-núcleo, com maiores densidades populacionais, alta taxa de natalidade e baixa taxa de mortalidade, as quais poderiam estar dispersando o excedente populacional para outras áreas; e,
2) áreas-marginais, com baixa taxa de natalidade e alta de mortalidade e que poderiam estar recebendo o excedente naturalmente. O manejo seria realizado nas áreas-marginais, enquanto que as áreas-núcleo seriam preservadas de qualquer intervenção. As estimativas populacionais dos grupos manejados podem ser obtidas pela técnica de Índice-manipulação-índice, o que reduz substancialmente os custos, devendo servir como base para definir as ações de manejo subsequentes, baseando-se nos conceitos de máximo rendimento sustentável (Begon & Mortimer, 1986; Caughley & Sinclair, 1994). O monitoramento sistemático da flutuação populacional das áreas-núcleo trazem segurança ao sistema e maior proteção àquelas populações. Uma resposta do Estado (especialmente São Paulo, onde a situação é mais grave) a essa demanda social pode ocorrer de maneira mais acertada caso haja uma implementação experimental desse manejo, permitindo que inevitáveis ajustes possam ser verificados antes, para poderem constar de uma futura regulamentação, que necessariamente condicione tal atividade a uma contrapartida ambiental que seja, no mínimo, a adequação ambiental da propriedade ao Código Florestal, o que colaboraria, inclusive, para amenizar os problemas decorrentes do desequilíbrio ambiental.

Gustavo Romeiro Mainardes Pinto ; Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Área de Proteção Ambiental do Anhatomirim
Av. Mauro Ramos 1113, Florianópolis, SC
Tel. (48) 282-1863, E-mail: gustavo.pinto@ibama.gov.br

Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz
Laboratório de Métodos Quantitativos, Departamento de Ciências Florestais, ESALQ/USP
Caixa Postal 09, 13418-900, Piracicaba, SP
Tel. (19) 3436-8676, E-mail: kferraz@esalq.usp.br

LITERATURA CITADA

Begon, M.; Mortimer, M. Population Ecology. A Unified Study of Animals and Plants.
Second edition. Blackwell Scientific Publications, Oxford, U.K, 1986.

Caughley, G.; Sinclair, A.R.E. Wildlife Ecology and management. Boston: Blackwell
Scientific Publications, 1994. 334p.

Ferraz, K.M.P.M.B.; Santos-Filho, R.M.F.; Piffer, T.R.O.; Verdade, L.M. Biologia e manejo
da capivara: do controle de danos ao máximo rendimento sustentável. In: Mattos,
W.R.S. (Ed.) A produção animal na visão dos brasileiros. Piracicaba: FEALQ,
2001, p.580-588.

Ojasti, J. Human exploitation of capybara. In: Robinson, J.G.; Redford, K.H. (Ed.).
Neotropical wildlife use and conservation. Chicago: The University of Chicago
Press, 1991, p.236-254.

Pereira, M.C.; Labruna, M.B. Febre maculosa: aspectos clínico-epidemiológicos.
Clínica Veterinária, III (12): 19-23, 1998.

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